Coronavírus e a ignorância global

A Covid-19 revelou como o mundo é propicio aos propagadores de ignorância. Uma das primeiras que ocorreram, por exemplo, foi chamar o Coronavírus de “Vírus Chinês”, com alguns insistindo nesta ideia ainda hoje. Ok, todos nós sabemos que a Covid-19 começou na cidade chinesa de Wuhan, que o governo da China provavelmente ocultou os primeiros casos, o que permitiu a explosão da doença mundialmente, e que existe interesse político em chamá-lo assim (não é de menos que Trump adore usar esse termo, eu diria até xenofóbico, em seus tweets). Mas eu pergunto desde quando essa doença teve realmente CEP fixo. Não demorou nada para que o Coronavírus se tornasse cidadão do mundo e ter carimbos no passaporte que dariam inveja em qualquer viajante com pretensões de dar a volta ao redor do globo. Mas a desinformação não para por aí.

Pior do que culpar os “vermelhos” por simples red scare são as alegações pseudocientíficas da origem, da cura e prevenção da Covid-19. Começaram a surgir teorias de que o Instituto de Virologia de Wuhan vazou acidentalmente o vírus[1] ou que fizeram bioengenharia para criá-lo, ou ainda que teve origem pelos judeus[2] e até pelo governo dos EUA.[3] Todas elas desmentidas pois a Covid-19 teve origem zoonótica.[4] O mais bizarro foi a ideia que torres de tecnologia 5G através de electromagnetismo é que estavam causando o Coronavírus, e algumas chegaram a ser derrubadas.[5][6] Entre as desinformações espalhadas sobre a prevenção, surgiram boatos que álcool gel era apenas antibacterianos e não antivirais e portanto não efetivos contra a doença quando na verdade são recomendados,[7] ou que máscaras não tem eficácia quando na realidade são eficazes.[8] O verdadeiro show de desinformação na minha perspectiva surgiu no que tange a cura do Coronavírus. Desde que a Vitamina D curaria a doença[9] até que a hidroxicloroquina[10] e a ivermectina[11] seriam as medicações corretas. E claro, a nova pandemia virou terreno fértil para os anti-vacina e o documentário pseudocientífico Plandemic de Judy Mikovits que alega que as vacinas são maléficas foi compartilhado na internet indiscriminadamente.[12]

Como foi dito no meu post anterior sobre um documentário que chega a abordar as fake news nas redes sociais, vivemos em uma distopia em que a disseminação do ódio e as notícias falsas se tornaram mais um tipo de vírus de internet o qual se espalha essencialmente pela desinformação e câmaras de eco propiciados pelos próprios algoritmos dessas redes. Isso se mostrou crucial para uma maior propagação e fatalidade do Coronavírus. Qual seria o antídoto? Bom, é a pergunta de 1 milhão de dólares que todos querem responder. As medidas atuais, criar agências de checagem de notícias e deletar conteúdo inapropriado esbarram em suas próprias limitações e polêmicas. O primeiro não conseguem conter a onda de notícias falsas que se alastram na internet muito mais rápido que as notícias verificadas, e deletar conteúdo por sua vez sempre levantará obviamente acusações de censura. Essas soluções tapam o sol com uma paneira ou criam novos buracos.

Jamais iremos eliminar totalmente a ignorância pois ela é produto de nossa humanidade. Eu sou ignorante em muitas coisas tal como você leitor e outros também são. Mas eu penso que a solução deve vir de fora da internet através da educação (ou até mesmo de dentro da internet como essa pandemia nos forçou a fazer com o ensino remoto). Isso é uma coisa óbvia mas que precisa ser sempre dita. Com a educação que tive jamais cairia em tal teia de informações falsas de maneira tão fácil. Talvez da mesma forma que alunos tem aulas sobre educação sexual poderia ter aulas sobre conscientização de consumo de notícias. Tudo bem, ideia um pouco estranha, mas que eu acho que daria super certo se bem aplicada. E colocar tal estratégia em prática não significaria o fim da ignorância e das fake news, afinal o ser humano sempre dá um jeito de tomar péssimas decisões, todavia que estaríamos colocando um guarda sol no lugar da peneira, ah se não estaríamos.

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